Nasci
Nasci em Carapicuíba - SP, numa terça feira, 15 de dezembro de 1970 (século passado); sagitário com escorpião e lua em câncer: alto-astral, sexual e chorão. Pai: Benedito, Mãe: Izabel. Caçula com três irmãs: Márcia, Fátima e Rosemary. O nome Márcio vem por causa de um motoqueiro da novela "Cavalo de Aço". Quem era o ator? Eu é que pergunto e se você souber me conte. Descobri cedo que nasci só pra uma coisa. Foi na minha primeira vez.
Minha Primeira Vez
Chorava porque queria ir à escola, por isso entrei mais cedo, 5 anos. No meu tempo ainda não tinha essa história de maternal, jardim. Fiz duas vezes o pré. De lá me lembro bem da minha estréia no teatro. Na peça: "O bolo da mamãe". Foi representando um garotinho que fazia um bolo no qual meus amigos de sala eram os ingredientes que descobri: era isso que queria fazer da vida! (Não bolos, mas sim, representar). Nesse dia a arte me escolheu. Ainda no pré: todas as festinhas que tinha eu era o mais aparecido. Iam cantar "Pai Francisco", eu era quem? Óbvio. Assim foi durante todo o ano. Mas na nossa formatura, a peça era "As Aventuras do Saci Pererê" e a professora Ana Luiza escolheu o Fábio para ser o Saci e eu um mero fantasma no meio de todos os outros meninos que também eram fantasmas. Conheci a inveja ali. Quatro anos depois, na quarta série, montei "As Aventuras do Saci Pererê" e fui o saci. Na escola fiz muito teatro acompanhado por uns disquinhos verdes, azuis, roxos, amarelos (lembra deles?). Mas foi um pouco mais tarde, ainda criança, que pisei num palco de verdade.
Um Saltimbanco do Teatro
Com 10 anos, surgiu um concurso chamado PROEM entre todas as escolas do estado, envolvendo várias modalidades. Uma delas, teatro. Montou-se um grupo na escola para competir. A peça escolhida: "Os Saltimbancos". Eu, o jumento. Foi lindo. Competimos com as escolas da cidade de Carapicuíba (Ah, nasci nela) e ganhamos do Rapto das Cebolinhas. Depois competimos com as cidades da região: Osasco, Barueri, Itapevi, Pirapora. Dá-lhe nós de novo.
Por fim, fomos para a fase final, no Sérgio Cardoso. Como todo "bom" festival organizado pelo governo, não teve a fase final, sabe-se lá por que. Só sei que fomos para aquele teatro incrível e só podíamos apresentar cinco minutos da nossa peça. A professora me pôs em cena sozinho fazendo o monólogo do jumento e cantando a música. Ao final, a platéia me aplaudiu de pé, emocionada. A partir desse momento de glória passei a dizer que ganhamos o Festival. Mentira. Mas pra mim foi o máximo ter aquele palco enorme só pra mim. Era a primeira vez que fazia teatro num teatro de verdade. Daí o bicho da arte me picou de vez.
O grupo da escola acabou, porque o Festival tinha acabado, mas não "Os Saltimbancos". Como o título da peça, íamos de escola em escola apresentando de graça, trocando por um lanche, um refrigerante ou o que viesse. Era uma época feliz! Então, descobri: o segredo é encher o prefeito! (Dê só uma olhada). Fiquei sabendo com 11 anos que o Festival de Teatro Amador da FEPAMA estava acontecendo. Fui assistir já decidido. Vi uma peça, ao final ouvi o debate e fui falar com os jurados: Posso apresentar minha peça aqui? O Benê, era o presidente da FEPAMA na época, e com muita paciência me explicou que para participar eu precisaria ter me escrito antes e o Festival já tinha até começado.
"Deixa, vá, deixa..." Por fim, no fim de semana seguinte, deixaram nos apresentar em seguida da peça que iria competir, só como participantes. Pronto. Ficaram todos embasbacados. Não ganhamos o Festival, mas o Benê apaixonado por nós, nos levava para muitas apresentações. Ele ganhava uma grana e a gente adorava! E só. Ao todo foram mais de 100 apresentações de "Os Saltimbancos". Foi aí que começou a minha breve carreira profissional inicial. Mas essa paixão toda pelo teatro foi brecada e aí tenho uma fase triste pra contar.
Menino Maluquinho
Outra das minhas loucuras foi com o "Menino Maluquinho" aos 12 anos. Li o livro e me apaixonei. Vi no jornal que a peça estava em cartaz e fui ver. Me apaixonei também, e como todo apaixonado queria ver de novo, estar perto. Só que não tinha dinheiro. Ia para o teatro bem cedo, tipo três horas antes da peça e ficava esperando alguém me botar pra dentro. Assim vi a peça 13 vezes, fiquei amigo do elenco e montei um "Menino Maluquinho" cover com meus amigos da escola. Por fim, apresentamos no próprio teatro FAAP para os atores da montagem profissional, depois de uma sessão para público. Essa foi a última peça que fiz antes da fase triste.
O Segredo é Encher o Prefeito
Quando fiz "Os Saltimbancos" e ganhamos prêmios, comecei a achar que o meu grupo de teatro era importante para a cidade de Carapicuíba. E com 10 anos fui até o gabinete do prefeito pedir patrocínio para fazermos um novo figurino e um novo cenário. Claro que o poderoso não me atendia e muito menos levava a sério uma criança querendo falar-lhe. Mas, isso não era problema para mim, que não tinha nada a fazer pelas tardes, depois da aula e ia todo dia, novamente, para o gabinete. Assim, ia ficando amigo da secretária dele que um dia me punha de frente com o cara.
Não sei como, mas ganhei um novo cenário e um novo figurino todo brilhante, com cetim pra todo lado. Na época achava o máximo! Não me contentando, quando montei "O Menino Maluquinho", aos 12 anos, lá fui de novo para a Prefeitura, fiquei esperando dias e dias e "batata", ganhei cenário e figurinos! As ajudas da prefeitura de Carapicuíba não pararam na infância. Quando montei "Um Pavor Barato" consegui que a Secretaria de Obras construísse meu cenário, sob minha supervisão. Paredes, portas, saídas falsas, portas giratórias. Quase deixei os marceneiros loucos. Me lembro bem de um deles que dizia: Tô com dor de "stambo". Vou "gomitá"! Ah, teve uma última, em 93, que me salvaram de uma situação terrível. Mas isso conto no outra festa.
Breve Carreira Profissional Inicial
Comecei a freqüentar a APTIJ, uma biblioteca só com textos de teatro para crianças e adolescentes. Saía de Carapicuíba, sozinho, de trem, e vinha até o teatro do Bixiga para ler teatro. Que paciência tinha a Célia Regina, atriz e bibliotecária! Uma vez perguntei a ela o que era "Bleque oute". Ela corrigiu: Blecaute. Foi lá que conheci o Meceni que me chamou para o meu primeiro espetáculo profissional, com 12 anos: Uma aventura a Caminho do Guarujá. Ensaios no velho teatro São Pedro. Sair da escola correndo, pegar o trem e ir para o ensaio. Estreamos no Centro Cultural São Paulo, passamos pelo Aliança Francesa, João Caetano. Eu sempre desesperando o elenco, pois por mais cedo que saísse de casa, o trem muitas vezes parava e eu chegava em cima da hora do espetáculo. No elenco? Isso você vê em TEATRO. Quando essa peça acabou, começou a fase triste e terminou a minha breve carreira profissional que estava só começando.
Fase Triste
Um dia meu pai me disse: Empresas pagam um salário mínimo para jovens que estudam no SENAI. A firma onde trabalho pode pagar pra você. Se arrumar, você aceita? Eu, sem saber o que era aquilo, aceitei. Quando fui conhecer o SENAI, percebi que era uma escola que formava mão de obra pesada. Me inscrevi no curso que menos me assustou: Mecânica Geral. Mesmo não querendo passar, fui sincero no teste e passei em 3º lugar na escola e primeiro no curso. Foram dois anos tristes, sem teatro, levando marmita e estudando ajustagem, tornearia, fresa, retífica, solda. Valeu pelos amigos. Mas que triste trabalhar atrás de um torno querendo fazer arte. Não foram poucas as vezes que chorei, sem ninguém ver. Parecia que aquilo nunca ia passar. Até que, durante o curso, soube de um teste para um musical infantil. Fui escondido, fiz o teste e passei. Era o protagonista. Faltava na escola para ensaiar. Até meu pai descobrir e me tirar da peça. Chorei, implorei que me deixasse estrear, pois só faltavam 15 dias. Ele foi implacável e eu abandonei o espetáculo despertando a ira do diretor que ficou sem ator prestes a estrear. Nem fui ver a peça depois. Toda vez que lembro disso, como agora, me dá um aperto no peito, um nó...








